Os centenários de Maués

Seu Francisco Rodrigues dos Santos,101, tem cinco filhos, 55 netos, 31
bisnetos e 15 tataranetos. Vive em Maués, a 267 quilômetros de Manaus, e
mantém uma dieta alimentar à base de peixe, guaraná, frutas regionais,
verduras, feijão, farinha e ervas da floresta, que, segundo ele, ajudam
na circulação sanguínea e para não ter problemas na hora de urinar. "Me
sinto bem vivendo aqui com a minha gente. Gosto de ver e ouvir as
brincadeiras das crianças, ler a minha bíblia e lembrar dos tempos em
que fui capataz de fazenda de guaraná e gado. Foram dias bonitos com a
minha mulher, a Petronila, que morreu com 96 anos, depois de 82 anos
comigo".
Ele faz parte da pesquisa sobre longevidade na
floresta amazônica da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI). No
município há 1.807 outros idosos com mais de 65 anos. Mas com 100 anos,
são poucos.
Segundo os pesquisadores, Maués é uma referência
mundial em longevidade na floresta tropical umida. Sabe-se,
cientificamente, que a longa existência na região está associada às
condições ambientais, ao tipo de vida dos ribeirinhos, ao consumo de
alimentos ricos em substâncias antiplaquetárias, como os encontrados no
guaraná, a ingestão de peixes, a genética, entre outros fatores que
estão sendo estudados.
Mesmo com a vista cansada e com
dificuldades para se locomover, seu Francisco Santos é considerado uma
"fortaleza de saúde" pela filha Ilza dos Santos Pantaleão, 65 anos, com
quem mora."Sempre está disposto.Não se queixa de doenças e acompanha o
crescimento dos netos, bisnetos e taranetos, quando eles vem aqui em
casa. Fico admirada e feliz por ter o meu pai entre a gente" comenta
Ilza.
A memória de seu Francisco é seletiva. Ele lembra mais de
sua juventude e de quando era goleiro na comunidade do Bom Futuro da
Vila Trindade, no paraná do rio Urariá de Cima, no interior de Maués.
"Eu sempre gostei de futebol e até que pegava bem no gol. Também me
criei ouvindo as histórias da Cabanagem (movimento popular nortista
contra o Império no século dezenove)". Sua mãe, dona Julia Preta, foi
escrava liberta. "Ela nasceu no Maranhão e depois veio para cá tentar
uma vida melhor", comentou pensativo.
Vitória sobre a "cegueira"
Com
mais vitalidade ainda que seu Francisco está dona Inez Barbosa Santana,
100. Ela caminha, planta, dança, lava, cozinha e ainda cuida do filho
de 59 anos, que sofre com crises de epilepsia. Com ela não tem tempo
ruim. Religiosa, ela agradece todos os dias por ter conseguido recuperar
a visão.
"Eu fiquei mais de 20 anos sem poder enxergar.Tinha
esperanças de poder ver um dia, por isso passava nos olhos banha de
traíra e ervas da floresta".Ela conta que em 2003 estava "ouvindo" uma
novela na TV, durante a tarde, e começou a ver nitidamente os atores e
atrizes na tela."De repente senti uma ardência diferente nos olhos e
comecei a ver. Assustada, gritei para a minha filha:Maria! Maria! estou
vendo.Ela não acreditou e disse:Mãe para de dizer bobagem.Que coisa é
essa que a senhora está dizendo? No que respondi: sim filha. Eu estou
vendo tudo".
Surpresa, a filha quiz saber da mãe como ela
estava e como era o corte do cabelo dela. A resposta foi:"Maria você é
gordinha e o teu cabelo está na altura dos ombros e tem mais, o teu
pescoço está grosso e quase não se vê de pequeno". A filha riu e chorou
ao mesmo tempo, abraçou a mãe e, juntas,viram a novela tomando café."Foi
um dia inesquecível", comenta dona Inez chorando ao recordar que a
filha faleceu aos 43 anos, em 2003.
Flamengo
Com
uma aposentadoria de um salário de R$ 520,00, dona Inez mantém a casa
com humor.Ela conta que o que gosta mesmo é de ver o seu Flamengo na TV
das amigas."Quando tem jogo vou para a casa das minhas vizinhas. Fiquei
muito chateada com o que fez o goleiro do meu time (ele é acusado de ter
mandando matar a mãe de sua filha) e também detestei a derrota do
Brasil para a Holanda, na Copa do Mundo".
Elegante, dona Inez
tem uma dieta parecida com a do seu Francisco, mas junto com o consumo
do guaraná diário, ela também gosta de mel, hortelã, óleo de andiroba e
arruda. Come peixe todos os dias. Devota de Santa Luzia, do Sagrado
Coração de Jesus, a santa dos olhos, ela diz vêr o mundo como uma
criança. "Todo dia é uma novidade.Tenho muitas coisas para aprender, por
isso sou "rueira" e alegre, muito alegre".
Duzentos anos de dança
Quem
também vive "vendendo saúde" em Maués é seu João Rocha Gomes,100, que
todos os dias bebe sua dose de guaraná, antes de começar as atividades
no guaranazal que cultiva em sua propriedade rural, no igarapé do
Camarãozinho, a pouco mais de uma hora de lancha do município.
Seu
Rocha, como é conhecido, vestiu sua melhor roupa para visitar o Centro
de Convivência do Idoso (CCI) na companhia da mulher, dona Zenaide da
Gama Gomes,72. "Vim aqui para comer, dançar, fazer novos amigos e para
dizer que estão derrubando a floresta na minha área. As motosserras não
param de cortar as castanheiras e as árvores que vi crescer.Agora, não
sei mais o que vai ser da mata no Camarãozinho".
Mesmo com o
desconforto do desmatamento, ele mantém o sorriso na face e não se faz
de rogado, quando dona Inez Santana lhe convida para dançar um forró.
Mas antes de aceitar, ele olha para dona Zenaide, que com um leve aceno
de cabeça consente que ele dance com outra mulher.Só assim ele avança e
pega da mão de dona Inez, que, num rápido movimento sai dançando pelo
salão com desenvoltura. Depois de duas músicas, eles vão para seus
lugares.Quem os vê pela primera vez, como foi o caso deste repórter, não
diz que juntos eles têm 200 anos.

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